A neve, por mais vezes que se veja, não cansa porque a paisagem branca que proporciona é um cenário de beleza única. Olhar pela janela e ver os farrapinhos a cair do céu como se fossem pequenas borboletas a esvoaçar é uma experiência adorável que felizmente já muitas vezes me aconteceu.
Quando era pequena e vinham grandes nevões, para quem aqui vivia da agricultura e tinha os animais nos currais e longe da povoação, não se pode dizer que apreciasse a beleza da neve no seu todo, ainda que soubesse os benefícios que dela advinham.
Para mim a neve era sinónimo de brincadeira a escorregar nela, a fazer bonecos, atirar bolas e a ficar gelada de roupa e calçado molhados e a tiritar de frio. Mas a cada nevão a sensação de querer agarrar a neve nas mãos como se fosse algodão gelado era sempre a mesma e muito boa.
Não havia brinquedos, nem agasalhos para neve como hoje acontece, talvez até por isso as crianças dessem muito mais valor a estes "milagres" que a natureza trazia e permitiam dar largas à imaginação quer nas brincadeiras quer a observar para depois descrever já que era certo e sabido ter de ser feita uma redacção na escola.
Cresci, durante muitos anos não vi neve e só dela me lembrava pelo Natal. A neve também se começou a esquecer de cair e os natais nevados passaram a ser raros sem ainda sabermos que o clima começava a sofrer malefícios um pouco por todo o lado derivados do pouco cuidado humano com a natureza.
Um dia voltei! Pude ir algumas vezes ver o manto de neve que se estendia pela Serra da Estrela, logrei mesmo em algumas manhãs deparar-me com a serra em frente da janela já nevada, mas tive de esperar uns anitos para voltar a ver a beleza dos floquinhos a cobrir de branco as árvores, a serra e o chão.
As primeiras imagens de neve que registei foram ainda com uma pequena máquina de rolo. Felizmente em 2009 já tive o privilégio de registar estas sem que tal adereço fosse necessário e, claro, foi um tal tirar de fotos de todas as formas e feitios.
Nos últimos 40, 50 anos o Sobral deixou de ser bafejado com grandes nevões dentro do povoado e há anos que nem sequer chega à Serra da Estrela e muito menos à nossa. Mas nos anos que cai é sempre uma festa para os olhos e uma alegria para quem gosta de descontrair em cima daquele tapete branco e macio a brilhar.
É assim que acontece! Uma mão cheia de neve e o mundo é outro! Viver a simplicidade das coisas genuínas sem precisar de brinquedos sofisticados para ser feliz é uma boa lição que os nossos mais novos deviam aprender.
Há uma leve capa nos telhados, mas em alguns lugares a neve "colha" bem como por aqui se diz e ficar a olhar este momento, nestes recantos, é mágico e se a máquina fotográfica fosse "xpto" a imagem seria como eu gostaria de a apresentar. Talvez um dia ainda possa acontecer.
Porém, eu já me contentei naquela altura e em todas as outras, com o que foi - e é - possível registar e muito mais feliz fiquei por a neve me ter dado o prazer de aqui chegar.
As ruas vazias, diferentes do meu tempo de menina, na largura, no piso, mas também na falta de gente que infelizmente já nesta altura se fazia sentir eram a nota de tristeza e solidão neste cenário tão belo.
Os pés que agora pisam o chão de neve já não são descalços como outrora e ainda bem. Felizmente para mim nunca precisei de andar descalça - quando o fazia era porque corria mais depressa sem sapatos - mas tive muitos colegas em que os sapatos eram miragem ou apertados porque muitas vezes já herdados de outros irmãos ou primos.
Na escola passou a ser obrigatório ir calçado e nas famílias grandes não era tarefa fácil contornar a pobreza para calçar os filhos todos. Quando olho estas imagens da neve penso nos anos 60 e não posso deixar de me recordar como esses anos foram tão duros, tristes e pobres com carências de toda a ordem.
Nos dias de hoje, por vezes, há a tentação de querer "dourar" dias e anos que foram tudo menos dourados. A miséria, a fome, o analfabetismo, as crianças a trabalhar horas indevidas, as meninas educadas no servir os pais, os irmãos, os maridos... a escola, para muitas uma miragem e os sonhos enterrados e sufocados em revolta e sem direitos a lágrimas.
Que os povos não esqueçam o que viveram nem se deixem levar por palavras que são tudo menos o que parecem. Importa nunca esquecer esse bem inestimável que é a LIBERDADE e hoje é o seu DIA MUNDIAL !
Que a neve nos ajude a recordar e a limpar a alma de tantas arestas. Que a neve derreta para que os dias de primavera venham luminosos e nos deixem percorrer os caminhos de LIBERDADE que desejarmos sem amarras ou vontades de outros.
Eis-me aqui a pensar num tempo tão longínquo, mas que não esqueço. O Sobral, felizmente, teve e continua a ter muito bons exemplos de mulheres que nunca se deixaram intimidar, partiram para lugares onde a neve era a dobrar, ou o calor de sufocar, mas pela sua força e coragem puderam singrar.

A neve fria, quando vem a sério, não enfeitou só campos, ruas e telhados, os carros também têm direito à sua manta de Inverno que, no caso, foi preciso retirar com cuidado.
Neste meu passeio, depois da neve praticamente deixar de cair, percorri uma pequena parte do Sobral e fique por aqui largos minutos a tocar na neve, a ver a paisagem a pensar nos tempos de antanho já referidos.
Quando voltamos aos caminhos velhos a saudade está presente, o coração agarra-se, por vezes, ao passado como se houvesse forma de lá voltar e conseguir mudar o que ainda nos entristece, mas isso não é possível e tudo quanto vivemos faz parte integrante de nós e molda-nos.
A neve, esta ou qualquer outra, derrete, e nós devemos seguir em frente tirando lições do passado, construtivas, e que nunca deixem afogar os ideias do presente que pode não ser fácil, mas é inegavelmente muito melhor que há 50 anos.
O dia declina, as ruas vazias, as chaminés já fumegam, as casas aquecem - hoje com um conforto térmico muito diferente do passado embora ainda não o seja na totalidade - tudo se aquieta e prepara para a noite. É Inverno, há neve e soube muito bem estar aqui, como saberia se fosse hoje!
Fotos: Fevereiro de 2009