TEMPO DE DESPEDIDA

A minha homenagem 
À ti Maria dos Santos que desceu hoje à última morada e deixou o "nosso" cantinho ainda mais vazio.
💗
Não tenho grande memória dela do tempo em que eu era criança, talvez por andar entre o Cabecinho, as Barrocas do Muro, a escola, as brincadeiras na ribeira e por tanto lado sem sossego... que só a partir dos meus vinte e poucos anos em que aconteceu o regresso inesperado, a ti Maria, vizinha do pé da porta, ali estava amável e prestável, com uma energia notável, senhora de "mão certa" na confecção do "nosso" célebre queijo cabra (corno), do bom fumeiro e broa de fazer crescer água na boca.

O seu dia começava sempre de madrugada e na ida para labuta a sua voz acordava-me no melhor do sono e, confesso, naquela altura não achava graça nenhuma, mas depois ria-me com ela quando lhe dizia que ela a falar e o meu pai a ligar o rádio às cinco da manhã para ouvir as notícias eram o ideal com que sonhava para acordar todas as manhãs das "supostas férias" que lá ia passar!

Trabalhadora incansável no campo onde, dizia-me, se sentia livre como os pássaros, mesmo nos últimos anos em que já precisa de um cajado e só o caminho já era canseira suficiente para qualquer um, para ela, não obstante o sacrifício, era como um revigorar de forças pelo que cultivava e via crescer com enorme prazer e contentamento na abundância das colheitas que tinha gosto em partilhar, e eu que o diga!

Tivemos grandes conversas, como acontecia na aldeia entre vizinhança em que uns eram guardiãs uns dos outros, se ajudavam e protegiam.
No pouco tempo disponível a ti Maria sentava-se, mas nossas escaleiras e lá vinham os desabafos de tristezas e alegrias, o imenso amor pela família que lhe ia no coração e os netos a trazerem-lhe um brilhozinho nos olhos e grande orgulho se deles falava.
Quando as forças, a idade, a doença e a necessidade de acompanhar o marido - a sua vida girava em torno do ti António e o seu bem-estar era a sua recompensa - pelo que, sentido isso, acedeu deixar a sua casa e foi para junto de outras amigas e da vizinha, a minha mãe, que já pouco podia falar, mas ainda a conhecia muito bem.
Passamos as duas a conversar noutro lugar de tudo e mais alguma coisa. Senti-lhe alguma saudade do que tinha ficado para trás, mas não angústia nem sequer lamento. Encarou a mudança com a naturalidade de quem se desprende dos bens terrenos, sem mágoa, por saber que estamos apenas de passagem e nada se leva na derradeira viagem.

Se houve alguma coisa a causar-lhe nostalgia acredito terem sido as rosas vermelhas que enfeitavam a sua varanda a partir de Março e, muitos anos, tinha rosas até Setembro. Nostalgia mitigada de cada vez que o filho lhe levava um ramo delas e muito a contentavam.

Também por tudo o que aqui descrevo, e me parecer fazer sentido, escolhi duas fotografias tiradas junto da sua CASA e das ROSAS para "emoldurar" esta palavras de homenagem.

Mulher de fé, a ti Maria sabia todas as orações, e os cânticos aprendidos desde menina nos bancos da igreja não lhe saiam do pensamento, do coração e da voz, porque adorava cantar - ouvia-a muitas vezes na nossa casa - e no coro da igreja era voz presente enquanto foi possível.

Passou a ser a "voz-mor" na capelinha do Lar, na missa dominical e também na sala de convívio, onde cantava religioso e profano com o mesmo sentimento e alegria de quem saboreia a vida na plenitude, apesar das fragilidades.

Hoje, que pela última vez, passou pertinho da "nossa travessa" a caminho do Campo Santo, acredito que os anjos estariam já a cantar com ela: " Eu caminharei, em direção a Deus/que alegra os filhos seus... " e, já pertinho de Deus Nosso Senhor, certamente se ouviu: " À porta desse sacrário/ o Jesus eu vou bater ...
https://youtu.be/mkPmp_ED-T4?feature=shared
aqui na terra eu, e todos nós, podemos escutar sempre que a saudade bater no coração.

Descanse, querida vizinha, junto de todos os que já partiram, protegida pelo manto de Nossa Senhora de quem era tão devota e na PAZ de Deus Nosso Senhor.

Um dia, no céu, nos encontraremos. 🕯️🙏 

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