QUANDO A REALIDADE FERE A ALMA
Quando uma realidade tão devastadora se abate sobre um território que amamos é como se uma lança nos ferisse a alma e coração. Lembrar os passos de minha avó, de meus pais, do ti Manel Forte, do ti Brás, outros que não conheci ou a minha memória infantil não reteve e ergueram os primeiros palheiros, as paredes do chães, presas, minas e levadas, rasgaram veredas que mais alargaram em caminhos e veio ainda, em boa hora, a estrada que tanta tinta fez correr e nos faz chegar aqui de carro.
Apenas no Inverno a azáfama era mais branda, mas sem deixar de haver trabalho. Mal o tempo fosse propício, já na Primavera, tudo começava às primeiras horas da madrugada. Cada estação tem o seu ritmo e culturas próprias e ninguém como os antigos para o saber e respeitar a natureza.

Conforme a época tudo à volta se vestia de cores diferente. Verdejavam as serranias com o centeio e os chães com leiras de nabiças, favas, ervilhas, couves, batatais, milheirais, alface, cebolas, alhos, cenouras, cherovias, beringelas, tomate, pimentos, pepinos feijão rasteiro e outro que subia milho acima ou pelos carvalheiros, botelhas (abóboras) a cair pelas paredes como que a enfeitá-las... e ainda as tentativas como as de meu pai em experimentar meloal, melancias ou semeara gravanços (grão de bico) tão bom para o caldo das festas.
Depois as cores mudavam de tonalidades quando as culturas iam amadurecendo, se arrancavam as batatas, começava o cortar da cana e tirar a folha nos milheirais. Era o pino do Verão! Ceifava-se o centeio, era o empo da malha na eira com os manguais a bater no chão numa "dança" incrível de força, mas também mestria que não estragava o grão. Apanhava-se o feijão e as loiras maçarocas e vinham as debulhas feitas nas noites ainda quentes do Verão a despedir-se e toda a vizinhança ajudada. Cobertas de fitas eram estendidas nos estendedoiros para secar devidamente o milho debulhado e o feijão que começava a secagem ainda nas vagens e se ia debulhando, nas tardes de domingo, muitas vezes à porta de casa e em animadas conversas.
No final do Outono, o verde dos pinheiros e ervedeiros (medronheiros) eram a nota "dissonante" da cor dourada ou já despida das árvores e outra vegetação. Alguma terra ficava em pousio, noutra ia-se já deixando com montes de estrume e outra já a ser preparada para as sementeiras de da época. Se ao longo do ano a lenha nunca podia faltar em casa já que não havia outra forma de se poder cozinhar, com o aproximar do Inverno essa necessidade era mais premente e lá iam os cestos à cabeça carregados de lenha grossa, às costas sacos de pinhas e molhos de gravetos.
Quanto aqui se trabalhou de sol a sol, produziu, comeu, descansou e acompanhou os pequenos rebanhos de cabras até monte acima. Não havia grandes cabradas, pois o espaço no curral era limitado as terras de pequenas parcelas e retalhos iguais ou menores na serra e não davam para pasto em abundância.
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Tudo era pequeno, embora na altura me parece muito grande, mas o trabalho era duro e muito, o que fazia com que a grande maioria tivesse o sonho de partir e procurar melhor. Não porque não amasse a sua terra, os campos e, no fim de contas aquela pequena sensação de liberdade que estes montes davam pela magnífica beleza que deles emanava.

Em busca do sonho muitos saíram e alguns não voltaram. Outros por escolha regressaram às origens, mas uma parte, inesperadamente, apesar dos sonhos construídos noutros lugares - como Angola e Moçambique - mas agora desfeitos viu-se sem alternativa e regressou. Ainda assim, de alma despedaçada tudo recomeçaram e deram vida durante mais de duas décadas a este e outros lugares.

O meu olhar detém-se aqui e quase me parece ver imagens do antes... com minha avó, de muita gente aqui a passar, outros trabalhar, da vez que uma laje levantada por mim e demasiado grande para o meu tamanho me fez cair e cortou-me a perna em grande profundidade ao nível da dobra do joelho, do lado de dentro e como tive de ir ao colo até ao salão para o ti Manel Paiva cozer tal buraco... Ou da vez que vieram aqui buscar minha avó, mordida por um lacrau (lacrario) quando andava a regar e minha mãe ao dar por falta dela "accionou" o socorro possível que a noite ia cair... encontrada quase inconsciente foi levada em padiola e salva pelo ti Manel Paiva.
Lá adiante, os castanheiros do Penedão, que nem sei se ainda lá estavam, desta também não devem ter escapado. Eram os meus "amigos" de brincadeiras quando corria na frente de minha avó, me escondia nas tocas que um ou dois deles tinham e ali ficava até já não sentir os passos de minha avó... e só saía quando ela chamava: Mariita, anda, olha que vem lá um lobo! Ó pernas! E lá ia a correr até a encontrar.
Desapareceu também o cantinho e o velho carro verde do ti Manel Forte, que permaneceram aqui por muito tempo e com quem começamos a travar mais conhecimento depois de meu pai ter falecido. Sobre o ti Manel deixei aqui um "post" quando partiu na sua última viagem e talvez valha a pena agora recordá-lo.https://draft.blogger.com/blog/post/edit/2814620532891397358/9127568651200809745
Certamente que, tal como a minha avó, o meu pai ou a minha mãe se aqui viessem ficariam em choque, o ti Manel não ficaria menos. Afinal se quase se deixou morrer aqui noutro incêndio e vivia cá quase os meses todos como um verdadeiro eremita, talvez fosse mesmo aquele apego à terra um sentimento tão profundo que não lhe saia da alma.
Como já referi a partida de meu pai para a eternidade fez com que viéssemos aqui mais vezes. Um ano até andamos dias a fio a limpar tudo, mas de nada adiantou... veio um incêndio que fez arder o que restava, mas estes palheiros todos foram poupados. Após a morte de meu tio Padre já com minha mãe de novo a viver no Sobral, mais algumas vezes vemos limpar o possível, pelo menos a toda a volta da palheira e tratar da videira de estimação de meu pai, pelo carinho a esta “casinha” e porque não queríamos que desse a ideia de uma terra abandonada! !
Mesmo com o "maior" limpo voltou a arder mais duas vezes! Num dos incêndios o fogo já "lambeu" a porta da cozinha, no penúltimo a porta foi consumida e a outra, da palheira, "lambida". Pedimos um orçamento para repor as portas e arranjar devidamente o telhado, mas nunca nos foi dado. Há muita falta de gente nesta área, nem todos sabem trabalhar esta pedra e para realizar trabalho pequenos não é fácil. Depois desta destruição fico a pensar que teria sido dinheiro inutilmente gasto... mas deixa-me também com aquela sensação de impotência e sem saber que atitude tomar... reconstruir ou deixar cair... as minhas memórias em pedaços...! Dói!
Os escombros fazem-me arrepiar. Parecem-me um cenário de guerra que infelizmente conheço e passam na minha memória imagens tão reais como esta que não esqueço, ainda que a pedra e a vegetação não tenham nada a ver. Aqui, felizmente não morreu ninguém e esse é o único aspecto positivo. Quanto ao resto... o abandono será maior... estamos mais velhos, menos forças e os filhos com vidas para já impensáveis a veleidades rurais.
Para amar a terra é preciso conhecê-la, saber lidar com ela e ter projectos de sustentabilidade viáveis que, mesmo assim, sem apoios podem não singrar. É um trabalho imenso que nunca está concluído e não deixa margem a grande descanso e as férias são uma miragem principalmente se houver animais. Alguém quer ter uma vida tão trabalhosa, a resvalar para a pobreza e em que o futuro é uma incerteza?
Porém, a resiliência da terra e das espécies autóctones deixa-me sempre rendida e comovida, e é notável que dois meses depois do incêndio já reverdeciam ervedeiros e carquejas. Outras espécies como giestas e eucaliptos irão renascer em grande força e essas eram dispensáveis, mas é impossível escolher e dominá-las só se houver um movimento bem grande nesse sentido.
Depois de uma catástrofe desta dimensão ver um ervedeiro queimado até à raiz onde já rebenta nova vida, só pode ser uma dádiva da mãe terra, a quem agradeço tamanhã bondade, e acredito que é um sinal de esperança e alento. É também por isso que escrevo tudo isto numa tentativa de preservar em mim a memória e possa vir a servir também para memória futura em que outros "beberão".
Imagens: incêndio de Agosto 2025















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