NÃO HÁ SÓ PEDRAS, MAS VIDAS !

Nunca me custou tanto fazer este caminho como no dia em que aqui aqui estive no dia 3 de Outubro de 2025 para ver os estragos dos incêndio de 10 de Agosto. De alma amargurada, ainda assim, esperava um milagre. 
E, por um breve momento renascia uma certa esperança pois ao olhar este ângulo do palheiro até parece quase direito, embora já tivesse visto lá de longe que não tinha o telhado, mas nada fazia prever o que iria encontrar. 
Sufoquei! Não queria ver! Como era possível? Afinal outros incêndios grandes aqui lavraram e pouparam sempre esta minha memória dão doce. Infelizmente, desta vez, tudo se perdeu nas vorazes labaredas de um fogo dantesco como nunca tinha havido. 
A barra da cama que foi de meus pais quando se casaram e meu pai tinha trazido para aqui. Logo na altura aborreci-me com ele porque tinha outras barras lá por casa sem este valor estimativo e muito menos bonitas... mas ideia dele foi esta e aqui termina, assim desta forma tão inglória - se entretanto não vier alguém roubá-la - a vida e quantos sonhos por ventura nela se sonharam. 
O telhado da cozinha completamente desfeito, todo o palheiro parece ter sido esventrado por uma bomba num cenário de guerra. Triste, tão desoladamente triste... fiquei aqui de olhos marejados a tentar "digerir" mas sem o conseguir... desejei tanto o colo de minha avó para me abrigar e com o seu avental as lágrimas me limpar como fazia quando eu caía nas íngremes veredas que rodeavam a palheira.
O medronheiro que por trás da palheira carregava de flor, de fruto, fazia sombra e era tão bonito jazia agora negro, nu e de braços estendidos como a pedir clemencia. A paisagem ficou mais pobre e desoladora. 
Aqui não havia só o verde da paisagem única e a perder de vista, não há só pedras que seguram terras e fizeram palheiros houve vidas, muitas vidas aqui estiveram e não sei como posso contá-las! Por isso, a minha homenagem é lembrá-las hoje e enquanto eu tiver vida. 
Parti! O silêncio em redor fazia adensar ainda mais a minha tristeza. Virei-me, olhei de novo o meu lugar "mágico" perdido para sempre nas malhas da maldade e incúria humanas que engoliram uma boa parte dos meus sonhos e memórias que de criança.
Imagens do incêndio de Agosto de  2025

Comentários